sábado, março 25, 2006

Choro!


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este seqüestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste òdio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

José Gomes Ferreira

quarta-feira, março 15, 2006

Vida


Foto retirada da internet sem fazer referência ao autor

Podia dizer apenas que a vida
é como um avião que passa
ou apenas um pássaro que voa,
mas a vida por mais que o negue
é isto mesmo,
é simplesmente a vida...

Podia chamar-lhe amor ou ódio,
insulta-la ou respeita-la,
denegri-la ou enaltece-la,
mas por mais que finjamos
a vida será sempre o cair da máscara
e o descer do palco,
deixando raiar o sol do meu pensamento
no luar dos sentimentos.

Esta vida é a vida de todos nós
que respiramos e lutamos contra a morte
em cada segundo que passa,
mas a vida para ser vivida
não é apenas isto,
existem as mãos,
existem ainda os corações
que gritam mais alto do que nós,
soando sua voz pela eternidade,
construindo e reconstruindo novamente
a vida que tanto queremos
e nunca alcançamos.

Viver é saber amar,
ser a natureza que nos vai na alma,
dar o mais profundo e sentido gesto
a quem dedicamos afinal a nossa vida.

Manuel Neves

terça-feira, março 14, 2006

SE O AMANHÃ NÃO VIER


Foto retirada da internet sem fazer referência ao autor

SE O AMANHÃ NÃO VIER
Se eu soubesse que essa seria a última vez que eu veria você dormir
Eu aconchegaria você mais apertado,
E rogaria ao Senhor que protegesse você.
Se eu soubesse que essa seria a última vez que veria você sair pela porta,
Eu abraçaria, beijaria você, e chamaria você de volta,
Para abraçar e beijar uma vez mais.
Se eu soubesse que essa seria a última vez que ouviria sua voz em oração,
Eu filmaria cada gesto, cada palavra sua,
Para que eu pudesse ver e ouvir de novo, dia após dia.
Se eu soubesse que essa seria a última vez,
Eu gastaria um minuto extra ou dois, para parar e dizer:
"EU TE AMO",
ao invés de assumir que você já sabe disso.
Se eu soubesse que essa seria a última vez,
Eu estaria ao seu lado, partilhando do seu dia, ao invés de pensar:
"Bem, eu tenho certeza que outras oportunidades virão,
então eu posso deixar passar esse dia".
É claro" que haverá um amanhã para se fazer uma revisão,
E nós teríamos uma segunda chance para fazer as coisas da maneira correta.
"É claro" que haverá um outro dia para dizermos um ao outro:
"EU TE AMO",
E certamente haverá uma nova chance de dizermos um para o outro:
"Posso te ajudar em alguma coisa?"
Mas no caso de eu estar errado, e hoje ser o último dia que temos,
Eu gostaria de dizer O QUANTO EU AMO VOCÊ,
E espero que nunca nos esqueçamos disso.
O dia de amanhã não está prometido para ninguém, jovem ou velho,
E hoje pode ser sua última chance de segurar bem apertado,
a pessoa que você ama. Se você está esperando pelo amanhã,
porque não fazer hoje?
Porque se o amanhã não vier, você com certeza se arrependerá pelo resto de sua vida,
De não ter gasto aquele tempo extra num sorriso, num abraço, num beijo,
Porque você estava "muito ocupado" para dar para aquela pessoa,
aquilo que acabou sendo o último desejo que ela queria.
Então, abrace o seu amado, a sua amada hoje. Bem apertado.
Sussurre nos seus ouvidos, dizendo,
O quanto o(a) ama e o quanto o(a) quer junto de você.
Gaste um tempo para dizer:
"Me desculpe", "Por favor", "Me perdoe", "Obrigado", ou ainda:
"Não foi nada", "Está tudo bem".
Porque, se o amanhã jamais chegar, você não terá que se arrepender pelo dia de hoje.

Este texto foi anexado no mural de comunicação interna da United Airlines, um dia após o atentado terrorista, ao World Trade Center pelo marido de uma das aeromoças mortas.

Texto retirado de
Leucemia Lição de Vida

segunda-feira, março 13, 2006

Se eu pudesse gritar...


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Se eu pudesse gritar ao mundo
Esse doce segredo, essa magia
Que tem sua pele, seus dedos...
Se eu pudesse dizer quantos
Sonhos coloridos e reais vivemos....
Se eu pudesse tirar esse véu
Que encobre meu rosto...
Desvendar para o mundo esse mistério ...
Dizer desse amor lindo
Nessa doce tenda que nos cobre...
Desse bailado alucinado que nos envolve...
Se eu pudesse dizer das nossas taças
Seledas tantas vezes por mil beijos...
Tanto suor, carícias... saciados desejos...
Dos meus anéis mergulhados em seus cabelos,
Do baton se perdendo, carimbando seu peito...
Dizer do amor endiabrado e santo
Que traz vida, vida mergulhada
Em cores, flores e fragrâcias sutis...
Por certo o mundo extasiado pararia
Para ver passar dois vencedores,
Dois amantes alucinados.. assumidos,
Gritando somos um só no amor nos anseios,
Alucinações, dois corpos que se
Perdem e se encontram
Para serem uma só fonte de energia,
Duas flores de um mesmo jardim...
Olhem, vejam o que pode o amor...
O amor venceu enfim!...

Marilena Trujillo

domingo, março 12, 2006

Dia das mulheres que não têm Dia da mulher - II Sem saída


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Preparava o jantar quando o primeiro golpe a atingiu.
As palavras tinham-na atingido antes. Duras. Ofensivas. Como
sempre.
- Hoje de novo não, pensou.
- Vou fazer o jantar, disse alto.
Tentou adiar a agressão que sabia inevitável.
Quando o golpe a atingiu no ombro gritou.
Ele continuou. Como sempre.
Marcando-lhe o rosto. O corpo. Como sempre.
Marcas de tantos anos que eram só uma. Dores de tantos anos que
eram só uma.

Ela levantou-se do chão. Acabou de fazer o jantar. Serviu-lho.
Como se nada tivesse acontecido.
Ele jantou.
Como se nada tivesse acontecido.
Ela esperou.
Arrumou a cozinha. Esperou.
Ele chamou-a. Não respondeu. Esperou.

Levantou a mesa. Lavou cuidadosamente a loiça. Não tentou
ocultar os vestígios dos comprimidos. Limpou tudo
cuidadosamente. Como sempre fazia.

Olhou as paredes imaculadas de silêncio. O corpo no chão. Ele
atapetando o chão.
Vestiu o casaco.
Pousou cuidadosamente o que lhe restava de amor no móvel do
hall de entrada junto às chaves, para que os filhos no dia seguinte
encontrassem chaves e amor.
Saiu.
Olhos limpos. Isenta de culpa.

Respirou fundo a água e o escuro quando o corpo, num salto,
atingiu o rio.



encandescente

707 20 00 77-Denuncie casos de violência APAV Apoio à Vitima

sexta-feira, março 10, 2006

Hoje


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Perdoe-me,
Se hoje sou apenas silêncio,
E calo a palavra,
Com a alma sombria,
E o meu olhar foge do seu,
Para que você não veja a lágrima teimosa,
Perdoe-me,
Se hoje meus braços fraquejaram,
E o abraço não foi tão forte,
Perdoe-me,
Se hoje o sorriso fugiu do meu rosto,
E não estive tão presente,
E fiz da ausência uma defesa dos meus sentimentos,
Na tentativa de não confessar,
De que hoje sou eu,
Que precisa da palavra certa,
Do olhar de carinho,
E o abraço forte,
Perdoe-me,
Se hoje sou eu quem precisa de você...


Patricia Montenegro

quinta-feira, março 09, 2006

Anjo da Guarda


Imagem: C.R

Leva-me contigo
abraça-me de mansinho
tira-me deste caminho
que deixou de ter brilho
sempre tão sózinho
porque eu já não consigo!

Leva-me contigo
a ver de novo o mar
olhar de novo a lua
acreditar de novo na vida
dar a minha mão a quem precisar
porque eu já não consigo!

Leva-me contigo
olhar de novo os campos
gostar de novo dum cravo amarelo
andar descalça à beira mar
sentir nos pés o seu ondular
para continuar a sonhar
...porque eu já não consigo!

Leva-me contigo
para um sítio inventado só nosso
onde o sorriso seja meu, teu, nosso
de tudo desisti... porque não posso
tira-me por favor deste fosso...
...porque eu já não consigo!

Leva-me contigo
já que és meu amigo
dá-me o teu abrigo
nessas tuas asas onde me aninho
quieta nesse teu cantinho
que fazes tudo com carinho
transforma-me em golfinho
...porque eu já não consigo
...porque eu já não
...porque eu já
...porque eu
morri!


Poema:Fatyly

quarta-feira, março 08, 2006

Dia Internacional da Mulher


Foto: Lázaro Roberto

Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.
Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para a injustiça.
Elas não levam “ não “ como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.
Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prémios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversário ou um novo casamento.


Pablo Neruda





Mulheres

"Certo dia parei para observar as mulheres
e só pude concluir uma coisa:
elas não são humanas. São espiãs.
Espiãs de Deus, disfarçadas entre nós.

Pare para reflectir sobre o sexto-sentido.
Alguém dúvida de que ele exista?
E como explicar que ela saiba exactamente qual mulher,
entre as presentes, em uma reunião,
seja aquela que dá em cima de você?

E quando ela antecipa que alguém tem algo contra você,
que alguém está ficando doente
ou que você quer terminar o relacionamento?
E quando ela diz que vai fazer frio e manda você levar um casaco?

Rio de Janeiro, 40 graus, você vai pegar um avião para São Paulo.
Só meia-hora de voo.
Ela fala para você levar um casaco, porque "vai fazer frio".
Você não leva. O que acontece?
O avião fica preso no tráfego, em terra, por quase duas
horas, depois que você já entrou, antes de decolar.
O ar condicionado chega a pingar gelo
de tanto frio que faz lá dentro!

"Leve um sapato extra na mala, querido.
Vai que você pisa numa poça...
" Se você não levar o "sapato extra", meu amigo,
leve dinheiro extra para comprar outro.
Pois o seu estará, sem dúvida, molhado...

O sexto-sentido não faz sentido!
É a comunicação directa com Deus! Assim é muito fácil...
As mulheres são mães!
E preparam, literalmente, gente dentro de si.
Será que Deus confiaria tamanha responsabilidade a um reles mortal?

E não satisfeitas em ensinar a vida
elas insistem em ensinar a vivê-la,
de forma íntegra, oferecendo amor incondicional e
disponibilidade integral.

Fala-se em "praga de mãe", "amor de mãe", "coração de mãe"...
Tudo isso é meio mágico...
Talvez Ele tenha instalado o dispositivo "coração de mãe"
nos "anjos da guarda" de Seus filhos
(que, aliás, foram criados à Sua imagem e semelhança).

As mulheres choram. Ou vazam? Ou extravazam?
Homens também choram, mas é um choro diferente.
As lágrimas das mulheres têm um não sei quê
que não quer chorar, um não sei quê de fragilidade,
um não sei quê de amor, um não sei quê de tempero divino,
que tem um efeito devastador sobre os homens...
É choro feminino. É choro de mulher...

Já viram como as mulheres conversam com os olhos?
Elas conseguem pedir uma à outra
para mudar de assunto com apenas um olhar.
Elas fazem um comentário sarcástico com outro olhar.
E apontam uma terceira pessoa com outro olhar.

Quantos tipos de olhar existem? Elas conhecem todos...
Parece que frequentam escolas diferentes das que frequentam os homens!
E é com um desses milhões de olhares
que elas enfeitiçam os homens.
EN-FEI-TI-ÇAM!

E tem mais! No tocante às profissões,
por que se concentram nas áreas de Humanas?
Para estudar os homens, é claro!
Embora algumas disfarcem e estudem
Exatas...
Nem mesmo Freud se arriscou
a adentrar nessa seara.

Ele, que estudou, como poucos, o comportamento humano,
disse que a mulher era "um continente obscuro".
Quer evidência maior do que essa?
Qualquer um que ama se aproxima de Deus.
E com as mulheres também é assim.

O amor as leva para perto dele, já que
Ele é o próprio amor. Por isso dizem "estar nas nuvens",
quando apaixonadas.
É sabido que as mulheres confundem sexo e amor.
E isso seria uma falha, se não obrigasse
os homens a uma atitude mais sensível e
respeitosa com a própria vida.

Pena que eles nunca verão as mulheres-anjos que têm ao lado.
Com todo esse amor de mãe, esposa e amiga,
elas ainda são mulheres a maior parte do tempo.
Mas elas são anjos depois do sexo-amor.
É nessa hora que elas se sentem o próprio amor encarnado
e voltam a ser anjos. E levitam. Algumas até voam.

Mas os homens não sabem disso. E nem poderiam.
Porque são tomados por um encantamento
que os faz dormir nessa hora."

Luis Fernando Veríssimo

"Quando um homem se levanta para falar,
as pessoas ouvem depois olham.
Quando uma mulher se levanta, as pessoas
olham; depois, se gostarem do que estão
vendo, escutam.

"Pauline Frederick
(1883-1938)

Sou da opinião que deveria haver o dia do homem
Porque há homens que sabem ser homens.
Assim como há Mulheres que sabem ser mulheres.

Feliz dia da Mulher

terça-feira, março 07, 2006

O mundo completo


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Estes gestos de vento,
estas palavras duras como a noite,
estes silêncios falsos,
estes olhares de raiva a apertarem as mãos,
estas sombras de ódio a morderem os lábios,
estes corpos marcados pelas unhas!. . .

Esta ternura inventando desejos na distância,
esta lembrança a projectar caminhos,
este cansaço a retratar as horas!...

Amamo-nos. Sem lírios
sobre os braços,
sem riachos na voz,
sem miragens nos olhos.

Amamo-nos no arame farpado,
no fumo dos cigarros,
na luz dos candeeiros públicos.

O nosso amor anda pela rua
misturado ao buzinar dos carros,
ao relento e à chuva.

O nosso amor é que brilha na noite
quando as estrelas morrem no céu dos aviões.

António Rebordão Navarro

segunda-feira, março 06, 2006

Desejo primeiro


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outros sim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Victor Hugo

domingo, março 05, 2006

Retrato


Foto: Mário Sousa

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles

sábado, março 04, 2006

Maus tratos


SIC

Criança de três anos morreu em Almada

Mais uma criança morreu em Portugal vítima de agressões graves. Chamava-se Yuri e ainda não tinha três anos. Os suspeitos, a ama e o marido, foram detidos pela judiciária de Setúbal e ficaram em prisão preventiva. As agressões de que a criança foi vítima foram tão violentas que lhe provocaram a ruptura de alguns órgãos vitais.
SIC


O Yuri fazia três anos em Maio. Desde Outubro que estava entregue aos cuidados de uma ama que não estava registada na rede de amas da Segurança Social. O marido, desempregado, terá sido o responsável pela agressão à criança. No dia 16 de Fevereiro, o alegado agressor terá levado o Yuri ao Centro de Saúde de Moinho da Maré, uma extensão do Centro de Saúde de Corroios. Disse que a criança tinha a barriga rija, mas o Yuri já estava muito mal. Tão mal que, no centro, médicos e enfermeiros chamaram o INEM, que transportou a criança para o Hospital Garcia de Orta. Foi operado de urgência mas cinco dias depois o Yuri morreu. A 21 de Fevereiro. O exame médico legal veio a revelar que a criança foi pontapeada violentamente, provocando a fractura do baço e do fígado. Antes do diagnóstico, já o hospital tinha contactado a Polícia Judiciária de Setúbal fornecendo todos os dados para que, durante este fim-de-semana viessem a ser detidos os alegados agressores. A ama e o marido estão em prisão preventiva. O suspeito das agressões está indiciado por ofensas corporais graves. A ama terá tentado silenciar a criança com mais violência já depois das agressões letais. O casal detido tem dois filhos menores que estão agora à guarda de familiares. Os pais do Yuri são emigrantes trabalhadores e não têm mais nenhum filho.

Fonte
SIC

sexta-feira, março 03, 2006

Adeus


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, março 02, 2006

Bilhete


Foto: Gianni Candido

Se tu me amas,
ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres,
enfim,

tem de ser bem devagarinho,
amada,

que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda.

Mario Quintana

quarta-feira, março 01, 2006

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta
De noite cantando, — mais doce que a frauta
Quebrando a solidão,

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil, Inquietos, travessos; — causando tormento,
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto humedece
Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranquilo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Não pensa — a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,
Às vezes do céu
Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se veste
De pranto co'um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Da pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram em causa
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.

Gonçalves Dias