domingo, março 12, 2006

Dia das mulheres que não têm Dia da mulher - II Sem saída


Foto retirada da internet sem referência ao autor

Preparava o jantar quando o primeiro golpe a atingiu.
As palavras tinham-na atingido antes. Duras. Ofensivas. Como
sempre.
- Hoje de novo não, pensou.
- Vou fazer o jantar, disse alto.
Tentou adiar a agressão que sabia inevitável.
Quando o golpe a atingiu no ombro gritou.
Ele continuou. Como sempre.
Marcando-lhe o rosto. O corpo. Como sempre.
Marcas de tantos anos que eram só uma. Dores de tantos anos que
eram só uma.

Ela levantou-se do chão. Acabou de fazer o jantar. Serviu-lho.
Como se nada tivesse acontecido.
Ele jantou.
Como se nada tivesse acontecido.
Ela esperou.
Arrumou a cozinha. Esperou.
Ele chamou-a. Não respondeu. Esperou.

Levantou a mesa. Lavou cuidadosamente a loiça. Não tentou
ocultar os vestígios dos comprimidos. Limpou tudo
cuidadosamente. Como sempre fazia.

Olhou as paredes imaculadas de silêncio. O corpo no chão. Ele
atapetando o chão.
Vestiu o casaco.
Pousou cuidadosamente o que lhe restava de amor no móvel do
hall de entrada junto às chaves, para que os filhos no dia seguinte
encontrassem chaves e amor.
Saiu.
Olhos limpos. Isenta de culpa.

Respirou fundo a água e o escuro quando o corpo, num salto,
atingiu o rio.



encandescente

707 20 00 77-Denuncie casos de violência APAV Apoio à Vitima

4 Comments:

Blogger wind said...

Excelente a tua escolha com este forte e real poema que retrata muitas realidades quotidianas.
Desta vez a tua missão é para a APAV:) Mais uma causa humana, que precisa de apoios.
A foto está genial para o poema. beijocas

12 março, 2006 00:26  
Blogger wind said...

Desculpa, onde se lê:"muitas realidades quotidianas", deve ler-se:"muitos casos quotidianos."

12 março, 2006 00:28  
Anonymous Fatyly said...

Quando li e releio este poema de encandescente sinto sempre um murro no estômago. Muito bem escrito, para quem procura no suicidio o final de um sofrimento tremendo!
Hoje nos hospitais já há quem tente ajudar, através da denúncia...mas o medo, a falta de coragem, faz com que a queixa fique suspensa ou até seja retirada. Porquê? por vezes julgados(as) ficam a aguardar pela sentença em liberdade condicional e onde tudo pode acontecer.
Por mais que se ama um besta ou uma besta...a coragem tem que ser grande e decidida! O trabalho da APAV é de facto meritório.
Mais um post teu...por uma causa que jamais deveria existir.
Beijos

12 março, 2006 19:24  
Anonymous Anónimo said...

adorei esta msg e a pura realidade da vida.as mulheres tem que pedi socorro mesmo os homens estão muito violento,tenho uma amiga que a historia dela se parece muito com esta já falei varias vezes para ela proucura uma delegacia mais ela tem medo que ele possa mata ela ,então fica sofrendo na mão dele ele bate nela quaze todos os dias os filhos não aguanta mais ve isso mais ainda são pequenos de mais para toma uma atitude quem passa por uma situação dessa teria que proucura ajuda mais ela acho que ela não quer se ajudada .aqui eu deixo uma msg para todas as mulheres que lé esta msg não fique apanhando de homem unico homem que tem o direito de nois bate e nosso pai e não marido então denucie seu marido se vc vor fitima de violencia denucie este safado de um chega para la e vai ser feliz .

01 junho, 2009 20:33  

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